Duas décadas após o início da exploração comercial do gás natural em Pande e Temane, Inhambane vive um novo ciclo de investimentos. Apesar dos avanços registados na economia local, muitos defendem que os benefícios da indústria extractiva ainda não correspondem ao potencial da província.
Em 2004, Moçambique entrou oficialmente na era da exploração comercial de gás natural com o arranque da produção nos campos de Pande e Temane, na província de Inhambane. Vinte e um anos depois, o sector consolidou-se como um dos principais pilares da economia nacional, contribuindo para as exportações, geração de energia, arrecadação de receitas fiscais e criação de oportunidades de negócio.
Ao longo deste período, a actividade liderada pela SASOL transformou a realidade económica da província, impulsionando investimentos em infra-estruturas, formação profissional, contratação de empresas moçambicanas e programas de desenvolvimento comunitário. No entanto, continua a existir um debate sobre até que ponto esta riqueza está efectivamente a melhorar as condições de vida das populações que convivem diariamente com a exploração dos recursos naturais.
Novo ciclo impulsiona investimento
A exploração de gás entrou recentemente numa nova fase com o Projecto de Partilha de Produção (PSA), um investimento avaliado em cerca de 760 milhões de dólares.
O projecto pretende aumentar a produção de gás natural, reforçar o abastecimento ao mercado interno e garantir matéria-prima para a Central Térmica de Temane, responsável pela produção de energia eléctrica. Está igualmente prevista a produção anual de aproximadamente 30 mil toneladas de Gás de Petróleo Liquefeito (GPL), destinado ao consumo doméstico, além da exportação do excedente.
Este novo ciclo representa uma oportunidade para aumentar o valor acrescentado dentro do país, reduzindo a dependência das exportações de matéria-prima.
Empresas moçambicanas conquistam maior espaço
Nos últimos anos, uma das prioridades tem sido aumentar a participação de empresas nacionais na cadeia de fornecimento da indústria do gás.
Segundo dados divulgados pela SASOL, mais de mil milhões de dólares foram gastos com empresas registadas em Moçambique durante os últimos cinco anos, abrangendo operações, projectos de expansão, construção de infra-estruturas e programas de desenvolvimento.
No âmbito do projecto PSA, cerca de 84% dos contratos foram atribuídos a empresas registadas em Moçambique, enquanto mais de metade do valor contratado beneficiou empresas de propriedade moçambicana.
Outro indicador considerado positivo diz respeito ao crescimento dos fornecedores sediados em Inhambane. As despesas com empresas da província aumentaram de aproximadamente 2,2 milhões de dólares, em 2019, para cerca de 13,2 milhões de dólares em 2024, representando um crescimento superior a 500%.
O desafio do verdadeiro conteúdo local
Apesar dos progressos, especialistas defendem que os números devem ser analisados com cautela.
Uma empresa pode estar registada em Moçambique sem que os seus proprietários sejam moçambicanos ou que os principais benefícios económicos permaneçam nas comunidades produtoras.
Por isso, o verdadeiro desafio passa por fortalecer empresas locais, aumentar a participação de empresários da província de Inhambane e criar negócios capazes de sobreviver mesmo depois do fim da exploração dos recursos naturais.
O acesso ao financiamento continua igualmente a ser um dos principais obstáculos enfrentados pelas pequenas e médias empresas locais.
Formação e emprego para os jovens
Outro eixo importante dos investimentos tem sido a capacitação profissional.
Centenas de jovens dos distritos de Inhassoro e Govuro receberam formação em áreas como electricidade, canalização, culinária, agro-processamento e empreendedorismo, procurando aumentar as oportunidades de emprego e autoemprego.
Embora estas iniciativas sejam vistas como positivas, permanece o desafio de transformar a formação em empregos permanentes e negócios sustentáveis que reduzam a dependência da indústria extractiva.
Desenvolvimento comunitário
Nos últimos anos foram também implementados diversos projectos sociais através dos Acordos de Desenvolvimento Local, envolvendo comunidades, autoridades distritais e a empresa.
Entre os principais resultados destacam-se a construção e reabilitação de sistemas de abastecimento de água, furos, blocos sanitários, programas de higiene, formação de mecânicos comunitários e criação de comités de gestão das infra-estruturas.
Foram igualmente financiados projectos agrícolas, criação de pequenos negócios, sistemas de irrigação e iniciativas de apoio ao empreendedorismo local.
Estas acções permitiram melhorar o acesso a serviços básicos em várias comunidades, embora persistam preocupações quanto à manutenção das infra-estruturas e à continuidade dos benefícios a longo prazo.
Uma riqueza que continua a levantar perguntas
Depois de 21 anos de exploração, poucos contestam a importância do gás natural para a economia moçambicana.
As receitas fiscais aumentaram, o investimento privado cresceu e a participação de empresas nacionais registou uma evolução significativa. Contudo, para muitos habitantes de Inhambane, a grande questão permanece: até que ponto esta riqueza está realmente a transformar o quotidiano das comunidades onde o gás é extraído?
A resposta dependerá da capacidade de converter um recurso finito em oportunidades permanentes de desenvolvimento económico, emprego qualificado e melhoria das condições de vida das futuras gerações.
Artigo de referência: O País – Hugo Firmino

